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| Tatiane Galper, "Sem Títiulo", 2014 |
O que é um raio-x senão aquela imagem onde você pode ver dentro? As imagens de Tatiane Galper tem uma dupla capacidade de burlar o visível. Ver dentro do real, das coisas do mundo, dos percursos cotidianos. Além disso é duplamente possível para nós, observadores, olharmos suas imagens e vermos dentro da imaginação de Galper. Sutileza, tempo para "estar", para andar por aí, atravessando o visível de um vaso de planta, de uma lixeira no pátio, de sua própria mochila encostada em um muro. É assim que seu olhar de fotógrafa nos apresenta o banal e seu aparente vazio: como um quebra cabeças cheio de combinações possíveis onde a criatividade pode penetrar. É simples, esta claro, só que não vemos. Materializar a memória das coisas que se contrapõe a memória que a autora tem das coisas. Recortar é natural, é estar presente no momento. Aliás me lembro como se fosse hoje de sua primeira saída. Aparentemente cheia de dúvidas, perguntou tudo que era possível antes de repousar suas mãos sobre a câmera. Chamava a atenção que, enquanto a maioria dos alunos estivessem eufóricos e praticamente já começando a clicar, ela estivesse ali, parada, estática, de olhos arregalados para aquele mundo que se abria. Respondi suas perguntas que eram tantas, enquanto os alunos foram saindo em grupos acompanhados pelos monitores.
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| Tatiane Galper, "Sem Títiulo", 2014 |
Fui caminhando com Tatiane pelo corredor e mostrando para ela os desenhos que a luz fazia, as sombras, ensinando os primeiros passos da fotometria. Dúvidas não paravam de surgir, mas ela calmamente tomava seu tempo e fazia suas imagens, coletava seus primeiros recortes de mundo com surpreendente firmeza. Teve um momento em que a senti mais confiante e perguntei se poderia então seguir adiante para acompanhar os outros alunos. Ela disse que sim. Foi se aproximando de uma planta próxima à janela e quando olhei para trás vi aquela cena que um professor jamais esquecerá. Tatiane deitada no chão do corredor, totalmente imersa na imagem que captava. O senhor da livraria falava com ela como se fosse a realidade querendo interromper a fantasia. Mas ela não ouvia. Ela girava no chão com a câmera colada ao rosto, num silêncio inquebrantável. Retornei, pois meu impulso de fotógrafa combinado ao de professora me pedia para registrar aquele momento. Ela sentada ali parecia ter parado tudo à sua volta e intuitivamente, quase sem respirar, tomava, então, a postura de um fotógrafo com anos de experiência. Voltei. E guardei aquela imagem na memória e no celular.
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| Tatiane Galper, "Sem Títiulo", 2014 |
Durante o resto do curso as dúvidas continuavam a surgir: "Professora eu li muito sobre fotografia documental para fazer o exercício da aula passada, mas ainda não sei o que quero, não sei o que pensar. Estou ainda incerta do que quero fazer". Era uma frase incomum para esses dias que vivemos, onde a maioria de nós age por impulso, fazendo primeiro e pensando depois. Pensei que havia algo de diferente ali. Mas de tudo que vinha se apresentando, nada foi maior que a surpresa da sua convicção. Mesmo em meio a um laboratório interditado ela me pede uma permissão especial para fazer seu ensaio:" Professora, quero muito fazer meu ensaio!" Eu tentei dissuadi-la num primeiro momento, já que aquela situação era de risco. Era mais seguro simplesmente fazer uma prova e obter a nota.
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| Tatiane Galper, "Sem Títiulo", 2014 |
No dia combinado Galper aparece com o que ouso chamar de uma "coleção de sutilezas". Imagens de seus percursos, das paredes, dos caminhos, todas com elementos diferentes, algumas com a presença de uma menina que ora aparecia num canto da cena, ora aparecia como o detalhe em um longo muro. Era um horizonte invisível, um horizonte delimitado pela fineza de seu olhar, era uma avessamento da vida, como faz o raio-x. E como se estivesse olhando dentro da gente, ela caminhou por aí, olhando dentro das coisas, e as coisas, como diria Didi-Huberman, olhando dentro dela...
(Orientação: Claudia Elias; técnico de laboratório: Marcos Cadena; monitor: Raquel Martins)