terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Tatiane Galper: "Olhar de Raio-X"


Tatiane Galper, "Sem Títiulo", 2014

O que é um raio-x senão aquela imagem onde você pode ver dentro? As imagens de Tatiane Galper tem uma dupla capacidade de burlar o visível. Ver dentro do real, das coisas do mundo, dos percursos cotidianos. Além disso é duplamente possível para nós, observadores, olharmos suas imagens e vermos dentro da imaginação de Galper. Sutileza, tempo para "estar", para andar por aí, atravessando o visível de um vaso de planta, de uma lixeira no pátio, de sua própria mochila encostada em um muro. É assim que seu olhar de fotógrafa nos apresenta o banal e seu aparente vazio: como um quebra cabeças cheio de combinações possíveis onde a criatividade pode penetrar. É simples, esta claro, só que não vemos. Materializar a memória das coisas que se contrapõe a memória que a autora tem das coisas. Recortar é natural, é estar presente no momento. Aliás me lembro como se fosse hoje de sua  primeira saída. Aparentemente cheia de dúvidas, perguntou tudo que era possível antes de repousar suas mãos sobre a câmera. Chamava a atenção que, enquanto a maioria dos alunos estivessem eufóricos e praticamente já começando a clicar, ela estivesse ali, parada, estática, de olhos arregalados para aquele mundo que se abria. Respondi suas perguntas que eram tantas, enquanto os alunos foram saindo em grupos acompanhados pelos monitores.
                                  Tatiane Galper, "Sem Títiulo", 2014
Fui caminhando com Tatiane pelo corredor e mostrando para ela os desenhos que a luz fazia, as sombras, ensinando os primeiros passos da fotometria. Dúvidas não paravam de surgir, mas ela calmamente tomava seu tempo e fazia suas imagens, coletava seus primeiros recortes de mundo com surpreendente firmeza. Teve um momento em que a senti mais confiante e perguntei se poderia então seguir adiante para acompanhar os outros alunos. Ela disse que sim. Foi se aproximando de uma planta próxima à janela e quando olhei para trás vi aquela cena que um professor jamais esquecerá. Tatiane deitada no chão do corredor, totalmente imersa na imagem que captava. O senhor da livraria falava com ela como se fosse a realidade querendo interromper a fantasia. Mas ela não ouvia. Ela girava no chão com a câmera colada ao rosto, num silêncio inquebrantável. Retornei, pois meu impulso de fotógrafa combinado ao de professora me pedia para registrar aquele momento. Ela sentada ali parecia ter parado tudo à sua volta e intuitivamente, quase sem respirar, tomava, então, a postura de um fotógrafo com anos de experiência. Voltei. E guardei aquela imagem na memória e no celular.

                                        Tatiane Galper, "Sem Títiulo", 2014 
Durante o resto do curso as dúvidas continuavam a surgir: "Professora eu li muito sobre fotografia documental para fazer o exercício da aula passada, mas ainda não sei o que quero, não sei o que pensar. Estou ainda incerta do que quero fazer". Era uma frase incomum para esses dias que vivemos, onde a maioria de nós age por impulso, fazendo primeiro e pensando depois. Pensei que havia algo de diferente ali. Mas de tudo que vinha se apresentando, nada foi maior que a surpresa da sua convicção. Mesmo em meio a um laboratório interditado ela me pede uma permissão especial para fazer seu ensaio:" Professora, quero muito fazer meu ensaio!" Eu tentei dissuadi-la num primeiro momento, já que aquela situação era de risco. Era mais seguro simplesmente fazer uma prova e obter a nota.
                                     Tatiane Galper, "Sem Títiulo", 2014

No dia combinado Galper aparece com o que ouso chamar de uma "coleção de sutilezas". Imagens de seus percursos, das paredes, dos caminhos, todas com elementos diferentes, algumas com a presença de uma menina que ora aparecia num canto da cena, ora aparecia como o detalhe em um longo muro. Era um horizonte invisível, um horizonte delimitado pela fineza de seu olhar, era uma avessamento da vida, como faz o raio-x. E como se estivesse olhando dentro da gente, ela caminhou por aí, olhando dentro das coisas, e as coisas, como diria Didi-Huberman, olhando dentro dela...

(Orientação: Claudia Elias; técnico de laboratório: Marcos Cadena; monitor: Raquel Martins)

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