É muito comum o interesse sobre a técnica fotográfica, principalmente quando trabalhamos com imagens ou projetos gráficos. Há também os "amadores", aqueles que praticam a fotografia como um lazer e que "amam" a prática. Todos desejam dominar suas artimanhas e produzir "a grande foto", uma imagem que deixará as outras no passado, que impactará os olhos de qualquer pessoa.
É fato que cada vez mais produzimos imagens. Produzir imagens tornou-se um hábito tão comum como acordar e abrir os olhos, comer ou escovar os dentes. Com esta profusão de imagens surge também a necessidade de produzir algo diferenciado, algo que vá se destacar neste mar de fotografias. Dominar a técnica fotográfica tornou-se uma poderosa ferramenta para tornar uma imagem visível. O raciocínio é bastante lógico :"se eu fotografo melhor, me torno mais visível, pois minha imagem estará em destaque". Então o pretendente a fotógrafo compra diversos equipamentos e faz milhares de cursos, publica a suas imagens e colhe seus elogios.
Esta parte do processo pode durar uma vida inteira. Outro dia conheci um médico que expunha suas imagens em seu consultório. Recebia dos clientes bibelôs que arrumava cuidadosamente em uma mesa de vidro: miniaturas de aparelhos fotográficos, bonequinhos fotografando, eram o reconhecimento de seus pacientes de que suas qualidades não se resumiam a cardiologia. No alto da parede, próximo a cabeceira de sua cadeira, estavam penduradas duas imagens. A primeira era uma fotografia de uma vista do Rio de Janeiro e a segunda era um recorte de jornal contendo esta mesma fotografia que havia sido publicada em uma coluna social de um jornal carioca. Era como se ele dissesse aos seus pacientes:"Olha, mesmo que você não entenda de fotografia, você pode ter certeza da qualidade desta foto, pois ela foi publicada em um jornal". Eu olhava para a fotografia e a unica coisa que me vinha à mente era que o foco estava "doce", como se diz em cinema, quando ele está quase lá, mas não exatamente lá. Além disso a imagem estava levemente borrada, denunciando a falta de um tripé, tão necessária para aquela imagem captada à noite. Excelência técnica nem sempre é requisito para a publicação de uma fotografia.
De certo modo o colunista que a publicara, com certeza, confiava apenas em seu gosto e este lhe valia para realizar esta legitimação de amadores pretendentes a profissionais e felizes com a pequena superioridade técnica que lhe permite o aparelho. De certo modo também é o envio destas fotografias ao colunista que o legitimam como o legitimador dos "melhores" amadores. Dito isto, o que restava naquela fotografia, para além do pouco domínio técnico que se revelaria a um olhar mais "treinado"? O que restava era o amor daquele senhor por fotografia. E isso era lindo! O que era lindo naquela fotografia é que não havia mais nada além do amor a fotografia. É isso que faz o amador- pensei- ele fotografa seu próprio amor.
Esta parte do processo pode durar uma vida inteira. Outro dia conheci um médico que expunha suas imagens em seu consultório. Recebia dos clientes bibelôs que arrumava cuidadosamente em uma mesa de vidro: miniaturas de aparelhos fotográficos, bonequinhos fotografando, eram o reconhecimento de seus pacientes de que suas qualidades não se resumiam a cardiologia. No alto da parede, próximo a cabeceira de sua cadeira, estavam penduradas duas imagens. A primeira era uma fotografia de uma vista do Rio de Janeiro e a segunda era um recorte de jornal contendo esta mesma fotografia que havia sido publicada em uma coluna social de um jornal carioca. Era como se ele dissesse aos seus pacientes:"Olha, mesmo que você não entenda de fotografia, você pode ter certeza da qualidade desta foto, pois ela foi publicada em um jornal". Eu olhava para a fotografia e a unica coisa que me vinha à mente era que o foco estava "doce", como se diz em cinema, quando ele está quase lá, mas não exatamente lá. Além disso a imagem estava levemente borrada, denunciando a falta de um tripé, tão necessária para aquela imagem captada à noite. Excelência técnica nem sempre é requisito para a publicação de uma fotografia.
De certo modo o colunista que a publicara, com certeza, confiava apenas em seu gosto e este lhe valia para realizar esta legitimação de amadores pretendentes a profissionais e felizes com a pequena superioridade técnica que lhe permite o aparelho. De certo modo também é o envio destas fotografias ao colunista que o legitimam como o legitimador dos "melhores" amadores. Dito isto, o que restava naquela fotografia, para além do pouco domínio técnico que se revelaria a um olhar mais "treinado"? O que restava era o amor daquele senhor por fotografia. E isso era lindo! O que era lindo naquela fotografia é que não havia mais nada além do amor a fotografia. É isso que faz o amador- pensei- ele fotografa seu próprio amor.
Pensando que esta imagem tivesse sido feita por alguém que está começando a praticar a fotografia, o que viria depois? Depois de controlar a exposição, depois de dominar a velocidade e apurar o foco? Acontece que cada vez mais pessoas aprendem a ter certo domínio sobre a técnica fotográfica. Saber conduzir uma imagem por seu viés técnico não é mais segredo. Está em tutoriais, sites, cursos a distância, mais cedo ou mais tarde o iniciante poderá dizer com orgulho que se tornou um "fotógrafo" com F maiúsculo, talvez até um profissional. Poderá exibir sua técnica deixando colegas com inveja e talvez fazendo parecer que é muito mais complicado o que na verdade é simples.
Mas como fazer falar a foto? Como fazer para que ela deixe de ser um mero exibicionismo de habilidades, um elogio ao ego? Estamos desperdiçando oportunidades diárias de produzir mais do que uma imagem, uma voz. A maioria ignora a Fotografia como fonte de expressão e poderá passar a vida toda regozijando-se por ter captado um maravilhoso fim de tarde.
Para expressar um pensamento, uma fala ou um sentimento, para além da banalidade dos belos clichés será necessário antes de mais nada um pouquinho de conhecimento. Mergulhar na História da Fotografia e conhecer os artistas que fizeram dela sua voz, sua ferramenta para exibir - não o próprio umbigo - mas um mundo imaginário que não era visível com os olhos apenas. É preciso ler o que eles pensavam, como criaram suas abordagens, de que modo atravessaram o lugar comum e desembocaram em algo que os diferenciou dos demais: sua linguagem. A verdade é que a maioria dos pretendentes a fotógrafo recusa-se a ler, a conhecer seus antecessores e por isso passa a "reinventar a pólvora". É como se alguém hoje quisesse reinventar o cubismo e ser reconhecido por sua grande inovação. Em fotografia, contraditoriamente, isso acontece o tempo todo. A todo momento há um novo por do sol para ser visto, como se a maravilha estivesse na imagem e não no próprio pôr do sol. O que há no amador é, ao mesmo tempo, este desconhecimento de que muito já foi feito antes dele e este contentamento em tentar repetir melhor o que já foi feito mais de mil vezes.
Mas como sair deste círculo de repetição? Outro modo é ler sobre o que já foi pensado sobre fotografia. Para realizar um bom projeto de ciências você pode reinventar o controle-remoto? Chegar lá numa feira de Ciências e expor sua inovação, um controle-remoto de televisão? Não. E você acharia isso injusto? Acharia injusto não receber o reconhecimento da sua invenção? Afinal você não sabia que o controle-remoto existia, nunca tinha lido sobre ele e que tinha descoberto todo o sistema sozinho. Bem, é o que acontece na Fotografia. As pessoas ignoram sua história, o trabalho dos artistas que vieram antes e principalmente ignoram tudo que já foi pensado sobre ela. Dá trabalho sim! É cansativo ler tudo isso. A leitura nem sempre é fácil. Tudo precisa ser lido e relido muitas vezes. É bem mais fácil apertar o botão, mas enquanto você ignorar tudo que foi feito antes de você continuará produzindo mais do mesmo, repetindo o que já foi dito e reinventando o "controle-remoto". Portanto, se você deseja se inscrever em uma bolsa de pesquisa para produção fotográfica ou em um concurso de Fotografia Contemporânea (não estou falando destes prêmios para vender câmera, que tem até os nomes das marcas), se você quer trazer uma imagem nova ao mundo, se quer inventar seu modo de expressão vai ter que fazer essa coisa de três letrinhas chamada "ler". E se você não fizer, acredite, alguém fará isso!
Segue o link para um texto básico sobre a nossa querida Fotografia: "O Ato Fotográfico" de Philippe Dubois.
* Este texto é dedicado aos alunos que me perguntam se devem se inscrever em concursos para bolsas de pesquisa em Fotografia. A resposta é:sim! Inscrevam-se! (mas por favor, leiam este livrinho...)

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